Semana Nacional de Ciência e Tecnologia debate desafios das mulheres na ciência e inovação
Com o tema “Ciência Delas”, 23ª edição do evento acontece em todo o Brasil e tem programação em Salvador; dados revelam desigualdade na participação feminina em áreas como tecnologia e engenharia
Foto: Imagem gerada por IA
A presença das mulheres na ciência e na tecnologia ainda é marcada por desigualdades no Brasil. Apesar de representarem a maioria dos concluintes do ensino superior, elas continuam sendo minoria em áreas como computação e engenharia, além de enfrentarem dificuldades para alcançar posições de destaque na carreira científica. O cenário está no centro das discussões da 23ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT), realizada entre 26 de outubro e 1º de novembro, em diferentes regiões do país, com o tema “Ciência Delas”.
Promovida pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a iniciativa busca valorizar a contribuição feminina para a produção científica e incentivar a participação de meninas e mulheres nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM). Em Salvador, parte da programação aconteceu nos dias 27 e 28 de outubro, no Parque Tecnológico da Bahia, com rodas de conversa, apresentações de projetos, oficinas e atividades interativas. As ações também foram distribuídas por outros municípios baianos e seguem ao longo de novembro.
A escolha do tema coloca em evidência uma questão que vai além da participação feminina nas universidades: a necessidade de garantir oportunidades para que mulheres ingressem, permaneçam e ocupem espaços de liderança na pesquisa e na inovação.
Dados do Censo da Educação Superior de 2023, analisados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), mostram que as mulheres representavam 59,6% dos concluintes de graduação no Brasil. Apesar da maioria no ensino superior, a participação feminina apresenta diferenças significativas entre as áreas de formação.
Em Ciência da Computação e Tecnologia da Informação e Comunicação, as mulheres correspondiam a apenas 17,5% dos concluintes. Nos cursos de Engenharia e áreas correlatas, o percentual era de 33,8%. Em contrapartida, elas representavam 76,3% dos concluintes em Educação e 72,9% em Saúde e Bem-Estar.
A desigualdade também aparece na trajetória acadêmica. Informações divulgadas pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação em fevereiro de 2025 apontam que as mulheres recebem 54% das bolsas de mestrado e 53% das bolsas de doutorado do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Entretanto, a participação cai para 35,5% nas bolsas de produtividade em pesquisa, destinadas a pesquisadores com destaque na carreira científica.
Os indicadores mostram que a presença feminina na formação acadêmica não se traduz necessariamente em igualdade de oportunidades ao longo da carreira. O acesso a financiamento, reconhecimento profissional e posições de liderança continua sendo um desafio.
As desigualdades de gênero se relacionam também com questões raciais e sociais. Para mulheres negras e indígenas, a entrada e a permanência em áreas científicas e tecnológicas podem envolver obstáculos adicionais, como dificuldades de acesso à formação especializada, equipamentos e oportunidades profissionais.
A discussão esteve presente na programação da Semana Nacional em Salvador, que contou com uma roda de conversa dedicada ao tema “Mulheres negras nas ciências e tecnologias”. O encontro reuniu profissionais e representantes do setor para discutir representatividade e oportunidades.
Entre as participantes estava a desenvolvedora de jogos Tata Ribeiro, ligada ao projeto Black XP, iniciativa de formação voltada a jovens negros e indígenas interessados no mercado de tecnologia. O projeto busca ampliar o acesso à qualificação e contribuir para a inclusão de grupos historicamente sub-representados no setor.
A programação também contou com o debate “Elas nas Exatas: trajetórias e contribuições à Ciência”, com pesquisadoras da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA). As atividades deram visibilidade a diferentes trajetórias femininas e às contribuições de mulheres para a produção do conhecimento.
A ampliação da participação feminina na ciência também depende do incentivo durante a formação escolar. O contato com experimentos, projetos de pesquisa e atividades tecnológicas pode aproximar meninas de áreas nas quais a presença masculina ainda é predominante.
Na Bahia, essa participação ganhou visibilidade por meio de projetos apresentados por estudantes da rede pública durante a programação em Salvador. Ao todo, 15 escolas estaduais de diferentes municípios participaram da feira, com iniciativas relacionadas à ciência, tecnologia e inovação.
Um dos trabalhos foi desenvolvido por Aysha Oliveira Santos e Nina Lopes Rocha Pita, estudantes do Colégio Estadual de Tempo Integral Georgina de Melo Erismann, em Feira de Santana. Com orientação da professora de Física Deise Vivas, as alunas criaram um dispositivo de baixo custo para auxiliar a locomoção de uma colega com deficiência visual no ambiente escolar.
A ideia surgiu da observação de uma dificuldade enfrentada pela estudante. A partir disso, as jovens utilizaram conhecimentos de tecnologia e engenharia para desenvolver uma solução voltada à acessibilidade.
Em entrevista à Secretaria da Educação da Bahia, Aysha relatou que inicialmente não tinha muito conhecimento sobre as áreas de tecnologia e engenharia, mas passou a desenvolver o projeto com o apoio da professora. Para Deise Vivas, o incentivo é fundamental para mostrar às alunas que elas também podem construir trajetórias nas ciências exatas.
Além dos projetos escolares, a programação em Salvador apresentou atividades de robótica, jogos digitais, realidade virtual e experiências interativas. A iniciativa também incluiu discussões sobre carreira científica, geração de renda e participação feminina na inovação.
A 23ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia não se restringe à programação realizada na capital baiana. A iniciativa integra uma mobilização nacional coordenada pelo MCTI, com atividades de divulgação científica em diferentes estados e municípios. Na Bahia, as ações são coordenadas pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti) e chegam a diferentes territórios do estado.
Ao colocar as mulheres no centro do debate, a edição de 2026 chama atenção para a importância de ampliar o acesso à formação científica e reduzir as desigualdades que ainda marcam o setor.
Os dados sobre graduação e bolsas de pesquisa mostram que a participação feminina avançou, mas ainda não ocorre de maneira equilibrada em todas as áreas e etapas da carreira. Mais do que incentivar meninas a escolherem profissões ligadas à ciência, o desafio está em garantir condições para que mulheres possam desenvolver pesquisas, criar tecnologias e ocupar posições de reconhecimento e liderança.
A presença de pesquisadoras, profissionais e estudantes em iniciativas como a Semana Nacional contribui para dar visibilidade a essas trajetórias e reforça que a produção científica também depende da diversidade de pessoas, experiências e perspectivas.
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