De operário a presidente pela quarta vez: a trajetória de Lula e os caminhos que marcaram sua história política
Aos 81 anos, Lula relembra uma trajetória que vai do movimento sindical à Presidência da República, marcada por três mandatos, crises políticas e transformações sociais

Foto: Ricardo Stuckert
Luiz Inácio Lula da Silva completa 81 anos nesta terça-feira (27), com uma trajetória que se confunde com parte da história política brasileira das últimas décadas. De uma infância marcada pela pobreza no interior de Pernambuco à chegada ao Palácio do Planalto, o presidente construiu sua carreira entre o movimento sindical, a fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), disputas eleitorais, programas sociais, crises políticas e um retorno à Presidência após deixar o cargo por mais de uma década.
Nascido em 27 de outubro de 1945, em Garanhuns, no Agreste pernambucano, Lula é um dos sete filhos de Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Mello, conhecida como dona Lindu. Em dezembro de 1952, ainda criança, mudou-se com a mãe e os irmãos para o litoral paulista, em uma viagem de aproximadamente 13 dias em um caminhão conhecido como “pau de arara”. A família buscava melhores condições de vida em São Paulo.
Já na infância, Lula começou a trabalhar para ajudar no sustento da família. Passou por atividades como engraxate, auxiliar em uma tinturaria e office-boy. Aos 14 anos, teve a carteira de trabalho assinada e, posteriormente, ingressou em um curso de torneiro mecânico no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). A formação abriu caminho para sua atuação na indústria metalúrgica, em São Bernardo do Campo, na região do ABC paulista.
Do chão de fábrica à liderança sindical
Foi no ambiente industrial que Lula iniciou sua trajetória política. Em 1969, foi eleito suplente da diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Três anos depois, tornou-se primeiro-secretário e, em 1975, assumiu a presidência da entidade, com 92% dos votos, passando a representar cerca de 100 mil trabalhadores.
Sua projeção nacional ocorreu principalmente durante as greves operárias do final da década de 1970 e do início dos anos 1980. Em meio à ditadura militar, Lula se tornou uma das principais lideranças das mobilizações por melhores salários e condições de trabalho. Em março de 1979, uma greve reuniu aproximadamente 170 mil metalúrgicos no ABC paulista.
As mobilizações enfrentaram a repressão do regime militar. Em 1980, após uma nova greve, Lula e outros dirigentes sindicais foram presos com base na Lei de Segurança Nacional. Ele permaneceu detido por 31 dias.
A experiência sindical contribuiu para a criação de um projeto político que buscava ampliar a representação dos trabalhadores nas instituições brasileiras. Em 10 de fevereiro de 1980, Lula participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, ao lado de sindicalistas, intelectuais, militantes de movimentos sociais e representantes de diferentes setores da sociedade.
Em 1983, também participou da fundação da Central Única dos Trabalhadores (CUT). No ano seguinte, esteve entre as principais lideranças da campanha Diretas Já, que mobilizou o país pela retomada das eleições diretas para a Presidência da República.
Em 1986, Lula foi eleito deputado federal por São Paulo e participou da Assembleia Nacional Constituinte, responsável pela elaboração da Constituição Federal de 1988.
As derrotas eleitorais antes da chegada ao Planalto
A primeira candidatura de Lula à Presidência ocorreu em 1989, na primeira eleição presidencial direta após o regime militar. Na disputa, chegou ao segundo turno contra Fernando Collor de Mello, mas acabou derrotado.
Lula voltou a concorrer em 1994 e 1998, sendo derrotado nas duas ocasiões por Fernando Henrique Cardoso, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB).
Apesar das derrotas, o petista consolidou sua posição como uma das principais lideranças da esquerda brasileira. Durante esse período, o PT ampliou sua presença institucional e construiu alianças políticas que seriam fundamentais para as eleições seguintes.
Na campanha de 2002, Lula adotou um discurso voltado à redução da pobreza, à geração de empregos e à recuperação do poder de compra dos trabalhadores. A candidatura também procurou transmitir segurança em relação à condução da economia, em um cenário de incertezas no mercado financeiro.
Em outubro daquele ano, Lula derrotou José Serra, do PSDB, no segundo turno e foi eleito presidente da República. A vitória marcou a chegada ao comando do Executivo federal de um ex-metalúrgico e líder sindical que havia passado anos disputando eleições sem conseguir alcançar o cargo.
Primeiro mandato: combate à fome e ampliação dos programas sociais
Lula tomou posse em 1º de janeiro de 2003, tendo José Alencar como vice-presidente. Seu primeiro governo colocou o combate à fome e à pobreza entre as principais prioridades.
Uma das iniciativas foi o Fome Zero, programa voltado à segurança alimentar. Em outubro de 2003, o governo criou o Bolsa Família, que unificou diferentes programas de transferência de renda e passou a atender famílias em situação de pobreza, com condicionalidades relacionadas a áreas como saúde e educação.
A gestão também ampliou políticas de valorização do salário mínimo e de incentivo ao emprego formal. Na educação, criou o Programa Universidade para Todos (Prouni), em 2004, para oferecer bolsas de estudo em instituições privadas de ensino superior, além de promover a expansão da rede federal de ensino.
O período foi marcado pelo crescimento econômico, pela ampliação do consumo e pela expansão do mercado de trabalho. O cenário internacional favorável às exportações brasileiras também contribuiu para os resultados econômicos daquele momento.
Entretanto, o primeiro mandato enfrentou uma das maiores crises políticas da história recente do país: o escândalo do Mensalão, em 2005. As denúncias envolveram um esquema de pagamentos a parlamentares em troca de apoio político no Congresso Nacional. O caso atingiu integrantes do governo e lideranças do PT, provocando afastamentos e investigações.
Apesar do desgaste, Lula manteve força eleitoral e chegou à disputa pela reeleição em 2006.
Segundo mandato: crescimento econômico e projeção internacional
Em 2006, Lula foi reeleito presidente, derrotando Geraldo Alckmin, então filiado ao PSDB, no segundo turno. A posse para o segundo mandato ocorreu em 1º de janeiro de 2007.
Entre as principais iniciativas desse período esteve o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), lançado em 2007, com investimentos previstos em infraestrutura, energia, saneamento e habitação. O governo também ampliou políticas educacionais e sociais, enquanto o programa habitacional Minha Casa, Minha Vida foi lançado em 2009.
A política externa ganhou destaque com a atuação brasileira em fóruns internacionais e o fortalecimento das relações com países da América Latina, da África e de outras economias emergentes. O Brasil também buscou ampliar sua participação nas discussões sobre comércio, desenvolvimento e governança global.
A crise financeira internacional de 2008 atingiu a economia brasileira, mas o governo adotou medidas de estímulo ao consumo e à atividade econômica para reduzir seus efeitos. No período, a expansão do mercado interno e as políticas sociais contribuíram para a melhoria das condições de vida de parcelas da população.
O segundo mandato terminou em 2010, com Lula deixando a Presidência após oito anos consecutivos no cargo. Sua sucessora foi Dilma Rousseff, também do PT, eleita naquele ano.
A saída do governo, a Lava Jato e a prisão
Após deixar a Presidência, Lula continuou como uma das figuras mais influentes da política nacional. Nos anos seguintes, porém, seu nome passou a ocupar o centro de investigações relacionadas à Operação Lava Jato.
Em 2017, foi condenado no processo relacionado ao tríplex do Guarujá, em São Paulo. Em abril de 2018, após a condenação ser confirmada em segunda instância, foi preso e permaneceu encarcerado por 580 dias, até novembro de 2019. A prisão o impediu de disputar a eleição presidencial de 2018, vencida por Jair Bolsonaro.
Em 2021, o Supremo Tribunal Federal confirmou a anulação das condenações de Lula relacionadas aos processos do tríplex do Guarujá, do sítio de Atibaia e do Instituto Lula. A decisão reconheceu que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para julgar aqueles casos. A anulação restabeleceu seus direitos políticos e permitiu que voltasse a disputar eleições.
É importante distinguir a anulação das condenações de uma absolvição de mérito: a decisão que invalidou aqueles processos não equivale, por si só, a uma declaração judicial de que todos os fatos investigados eram inexistentes.
Terceiro mandato: retorno à Presidência e novos desafios
Em 2022, Lula voltou a disputar a Presidência, tendo Geraldo Alckmin como candidato a vice. No segundo turno, em 30 de outubro, derrotou Jair Bolsonaro por uma diferença de pouco mais de dois milhões de votos: recebeu 60.341.333 votos, equivalentes a 50,90% dos votos válidos, contra 58.203.620 votos de Bolsonaro.
A vitória marcou seu retorno ao Palácio do Planalto após 12 anos fora da Presidência. Lula tomou posse em 1º de janeiro de 2023, iniciando seu terceiro mandato, com a promessa de reconstruir políticas públicas e ampliar o combate à fome e à desigualdade.
Entre as medidas do período estiveram a retomada e reformulação do Bolsa Família, o lançamento do Novo PAC, a ampliação de iniciativas habitacionais e a criação do Pé-de-Meia, programa de incentivo financeiro destinado a estudantes do ensino médio público. O governo também retomou ações voltadas à segurança alimentar e buscou fortalecer políticas ambientais.
Na economia, a gestão enfrentou o desafio de conciliar crescimento, controle das contas públicas, redução das desigualdades e atração de investimentos. A aprovação da reforma tributária sobre o consumo, em 2023, foi uma das principais mudanças estruturais do período.
O terceiro mandato também foi marcado por divergências com setores da oposição, debates sobre segurança pública, política fiscal e meio ambiente, além da continuidade da polarização política que se intensificou no país desde as eleições de 2018.
A nova disputa eleitoral e a trajetória aos 81 anos
Em 2026, Lula voltou a disputar a Presidência da República pelo PT, tendo Geraldo Alckmin novamente como vice. A campanha ocorreu em um cenário de forte polarização e colocou em debate a continuidade das políticas sociais, os rumos da economia e os desafios enfrentados pelo país.
A eleição de outubro representou mais um capítulo de uma trajetória que atravessou diferentes fases da política brasileira: a redemocratização, a consolidação dos partidos, as crises institucionais e a disputa entre projetos distintos de país.
Ao completar 81 anos, Lula reúne três mandatos presidenciais exercidos e uma longa história de participação na vida pública. Sua trajetória é marcada tanto por políticas sociais que alcançaram milhões de brasileiros quanto por crises políticas, controvérsias e disputas que continuam alimentando avaliações divergentes sobre seus governos.
De operário a líder sindical, de candidato derrotado a presidente eleito, Lula permanece como uma das figuras centrais da política brasileira. Sua história acompanha transformações sociais, econômicas e institucionais do país e segue no centro do debate público.
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