Brasil transforma pele de tilápia em curativo para queimaduras e prepara produção em larga escala
Tecnologia desenvolvida por pesquisadores da UFC pode reduzir a dor, o tempo de cicatrização e a necessidade de trocas de curativos

Foto: Viktor Braga / Divulgação / UFC
Uma tecnologia desenvolvida por pesquisadores brasileiros transformou a pele da tilápia em um curativo biológico para o tratamento de queimaduras. Desenvolvido pela Universidade Federal do Ceará (UFC), o método utiliza a pele do peixe após processos de preparação e esterilização para formar uma cobertura temporária sobre a área lesionada.
A pesquisa começou em 2015 e passou por testes laboratoriais, estudos em animais e ensaios clínicos. A pele da tilápia apresenta alta concentração de colágeno tipo 1 e características estruturais semelhantes às da pele humana, fatores que contribuem para o processo de regeneração do tecido.
O curativo é colocado diretamente sobre a queimadura e permanece aderido à região lesionada. Segundo pesquisadores da UFC, o material ajuda a proteger a ferida, reduzir a perda de líquidos e diminuir a quantidade de trocas necessárias durante o tratamento. Com isso, o método também pode reduzir a dor e os custos hospitalares.
Mais de 300 pacientes já foram tratados
A tecnologia já foi utilizada em pacientes no Ceará. De acordo com o Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos da UFC, mais de 300 pessoas vítimas de queimaduras haviam sido tratadas com a pele de tilápia até dezembro de 2024.
Segundo a universidade, nenhum desses pacientes apresentou rejeição ou infecção relacionada ao uso do material. Os resultados também apontaram redução das dores, do tempo de tratamento e dos gastos hospitalares.
O curativo é estudado principalmente para queimaduras de segundo grau. Em casos mais graves, de terceiro grau, a pele de tilápia pode ser utilizada inicialmente para auxiliar na recuperação do tecido, antes da realização de um enxerto com pele do próprio paciente.
Primeira fábrica será construída no Ceará
O projeto entrou em uma nova etapa em 2026. A UFC licenciou a tecnologia para um consórcio que pretende construir, em Jaguaribara, no Ceará, a primeira fábrica brasileira dedicada à produção de curativos à base de pele de tilápia.
A unidade deverá começar produzindo cerca de 4,3 mil peles por dia e alcançar capacidade de até 12 mil unidades diárias ao longo dos primeiros anos. A produção inicial deverá passar por lotes-piloto e seguir as normas de fabricação necessárias para a obtenção dos registros junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
O processo de liofilização permite retirar a água da pele e conservar o material sem a necessidade de refrigeração. A tecnologia também abre possibilidade para o desenvolvimento de outros produtos voltados ao tratamento de feridas em humanos e animais.
A expectativa é que a produção industrial amplie o acesso ao curativo e transforme uma matéria-prima que normalmente seria descartada em uma alternativa para o tratamento de queimaduras.
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