Pesquisas eleitorais perderam a credibilidade? O que os números não mostraram antes das urnas
Quaest, AtlasIntel e Datafolha apontaram Lula à frente de Flávio Bolsonaro na reta final, mas resultado oficial colocou o candidato do PL na liderança
Foto: Vittor Sales / Ricardo Stuckert
As pesquisas eleitorais erraram o resultado do primeiro turno da eleição presidencial de 2026? A pergunta ganhou força depois que os números divulgados na reta final da campanha foram confrontados com a apuração oficial. Levantamentos de institutos conhecidos, como Quaest, AtlasIntel e Datafolha, apontavam Luiz Inácio Lula da Silva (PT) numericamente à frente de Flávio Bolsonaro (PL). Nas urnas, porém, o senador terminou na liderança, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do presidente.
Na véspera da votação, a Quaest indicava Lula com 46% dos votos válidos e Flávio com 45%. O cenário era de empate técnico, considerando a margem de erro de dois pontos percentuais. A AtlasIntel, por sua vez, apontava 47% para Lula e 44,1% para Flávio, com margem de erro de um ponto. Já o Datafolha mostrava 45% para o petista e 42% para o senador, também em situação de empate técnico, com margem de dois pontos. Os três levantamentos colocavam Lula à frente, embora em proporções diferentes.
O resultado oficial, no entanto, foi diferente. Flávio terminou o primeiro turno com quase dois pontos de vantagem sobre Lula. A Quaest chegou mais perto de indicar uma disputa equilibrada, mas não captou a liderança do candidato do PL. A AtlasIntel apresentou uma distância maior entre os candidatos, enquanto o Datafolha também estimou uma vantagem petista que não se confirmou na apuração. A diferença levanta uma questão incômoda: se levantamentos realizados tão perto da votação não identificaram quem terminaria na frente, até que ponto o eleitor deve usá-los para entender a disputa?
O problema não é simplesmente uma pesquisa apresentar números diferentes do resultado final. Levantamentos eleitorais são estimativas feitas a partir de entrevistas com uma amostra da população, e não uma contagem antecipada dos votos. Ainda assim, quando institutos de grande visibilidade divulgam cenários que acabam contrariados pelas urnas, é legítimo cobrar explicações sobre os métodos utilizados, a seleção dos entrevistados e a capacidade de identificar mudanças no comportamento eleitoral.
A margem de erro também merece atenção. Ela não funciona como um certificado de precisão nem significa que qualquer resultado fora da faixa estimada pode ser automaticamente explicado por ela. A margem expressa uma incerteza estatística dentro das condições do levantamento. Outros fatores, como a composição da amostra, a disposição dos entrevistados para declarar o voto, a abstenção e mudanças de última hora, também podem interferir na estimativa final.
No caso da Quaest, por exemplo, o instituto utilizou um modelo de eleitor provável para tentar estimar quem efetivamente compareceria às urnas. Mesmo com esse recurso, Lula apareceu numericamente à frente. A AtlasIntel utilizou recrutamento digital, enquanto a Quaest realizou entrevistas presenciais. As metodologias são diferentes, mas a comparação mostra que nenhum método conseguiu apontar a liderança de Flávio no resultado final.
Isso significa que as pesquisas devem ser ignoradas? Não necessariamente. Elas continuam sendo ferramentas para medir intenções de voto em determinado momento, identificar tendências e observar mudanças ao longo da campanha. O problema começa quando os números são tratados como certezas, usados para decretar antecipadamente quem está vencendo ou apresentados ao público sem a devida explicação sobre suas limitações.
Também é importante separar erro de estimativa de suspeita de manipulação. Uma pesquisa contrariada pelo resultado não comprova, por si só, que houve fraude ou intenção de favorecer determinado candidato. Para sustentar uma acusação desse tipo, seriam necessárias evidências concretas. Isso, porém, não elimina a necessidade de transparência nem impede que os institutos sejam cobrados por diferenças relevantes entre suas projeções e o resultado oficial.
O primeiro turno de 2026 deixa uma reflexão necessária para eleitores, imprensa e empresas de pesquisa: os levantamentos ajudam a compreender uma eleição, mas não substituem o voto e tampouco devem ser tratados como retratos infalíveis da realidade. Quando os números divulgados às vésperas das urnas apontam em uma direção e a apuração revela outra, a credibilidade dos institutos depende também da capacidade de explicar o que aconteceu.
No fim, a pergunta não é se devemos acreditar cegamente nas pesquisas ou descartá-las por completo. É por que os eleitores deveriam confiar em levantamentos que não conseguiram identificar o resultado que efetivamente saiu das urnas e o que os institutos farão para explicar essas diferenças.
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