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Do protagonismo ao fim de ciclo; relembre a era Cauly

Do protagonismo ao fim de ciclo; relembre a era Cauly

Ao todo, o camisa 8 disputou 174 partidas pelo Tricolor, anotando 23 gols e 23 assistências

| Autor: Marco Pitangueira

Foto: Catarina Brandão / EC Bahia

Considerado o primeiro grande protagonista da “era Grupo City” no Bahia, o meio-campista Cauly perdeu o posto de principal jogador da equipe ao longo de suas três temporadas na equipe.  Quando chegou, em 2023, era inimaginável montar um esboço dos “11 iniciais” sem a presença do jogador, que correspondia em campo, sendo peça essencial para livrar o clube do rebaixamento. De lá para cá, é comum ver Cauly conviver com a reserva, atuando em partidas de pouco prestígio e menos minutos em campo.

Natural de Porto Seguro, o meia se mudou para a Europa aos 11 anos de idade. Foi justamente no velho continente, mais precisamente na Alemanha, onde Cauly iniciou e fez a maior parte de sua carreira. Após sair do futebol alemão, ele foi diretamente para o Ludogorets, da Bulgária, onde tinha o sonho de jogar a Champions League. Apesar de não chegar ao seu objetivo, o baiano jogou a Europa League por três temporadas. Foram três temporadas pelo clube búlgaro, com 5 títulos conquistados. Fora dos grandes palcos europeus, o ciclo do meio-campista na Europa tinha chegado ao fim.

Chegada ao Bahia

Aos 27 anos, Cauly estava pronto para atuar no futebol brasileiro pela primeira vez na carreira e no início de fevereiro de 2023, ele fora anunciado pelo Esporte Clube Bahia. De cara, o meio-campista já foi “exposto” a uma pressão: ele herdou a mística camisa 8, que já pertenceu a figuras como Bobô e Douglas Franklin. Peça fundamental para a equipe desde sua chegada, Cauly sagrou-se campeão baiano, conquistando seu primeiro título pelo Esquadrão. 

Após o título estadual, Cauly e Bahia encararam o grande desafio do ano: o Campeonato Brasileiro. Recém-promovido a primeira divisão, o tricolor vivia seu primeiro ano de Grupo City, repleto de investimentos, mudanças nas estruturas internas e uma luz no fim do túnel para uma torcida que aguardava viver grandes momentos há muitos anos. Porém, na realidade, a temporada de 2023 foi muito aquém do esperado, exceto por um jogador: Cauly Oliveira.

Apesar do ano conturbado, o camisa 8 assumiu o protagonismo da equipe. Ao todo, foram 10 gols e 8 assistências, fora as partidas de enorme protagonismo, que não geravam uma participação direta em gol. O meia foi o líder de assistências, passes decisivos, dribles certos e o segundo em gols e chances criadas. 2023 foi o ano do camisa 8.

Cauly comemorando gol diante do América-MG em 2023 / Foto: Felipe Oliveira / EC Bahia

Conforme é mostrado no mapa de calor abaixo, o jogador costumava atuar mais pelas beiradas do campo. Em um time na ausência clara de atletas para puxar o protagonismo, coube a Cauly fazer isso, aparecendo em todas as partes do campo. O meia trazia da esquerda e/ou direita para dentro, ou até mesmo buscava o jogo no pé dos zagueiros, ditando o ritmo. 

Dados: Sofascore

Alguns jogos não saem da cabeça do torcedor tricolor. Um deles, a partida diante do Corinthians, disputada em São Paulo, onde o Bahia venceu por 5x1. Na ocasião, Cauly marcou um gol e deu uma assistência. O gol, inclusive, concorreu como o gol mais bonito do Campeonato Brasileiro de 2023. Após o duelo, o meio-campista avaliou sua temporada e a luta da equipe contra o Z4.

"Acho que, pra mim, não adiantaria muito ter feito um bom campeonato se a gente não conseguir manter o Bahia na Série A, então, como eu falei, tá tudo nas nossas mãos, a gente vai dar o máximo aí pra conseguir esse objetivo aí, que é o objetivo principal", detalhou.

Diante de um ano de estreia no futebol brasileiro em seu mais alto nível, o jogador passou a ser preterido pelas maiores equipes do país. O Palmeiras, bicampeão brasileiro na época, chegou a fazer uma proposta próxima dos R$ 24 milhões. Devido aos investimentos do Grupo City, o Bahia conseguiu segurar o camisa 8, renovando seu contrato até o fim de 2028. Portanto, tudo parecia perfeito: Novo contrato, protagonismo no time de seu estado e companheiros de grande cacife ao seu redor.

A queda

De contrato novo e protagonista da permanência do Tricolor na Série A, Cauly se preparava para lidar com um 2024 ainda mais pressionado. Além de precisar conviver com a pressão de seu próprio nível apresentado anteriormente, o jogador se encontrava em um Bahia que pretendia mudar seu elenco quase inteiro, trazendo pesos de nomes e buscando se consolidar no cenário do futebol brasileiro. 

E assim foi feito. Logo no começo de 2024, o Bahia anunciou a contratação de três nomes que mudariam o patamar da equipe: Caio Alexandre, Jean Lucas e Everton Ribero. O último, que havia recém disputado Copa do Mundo pela Seleção Brasileira, chegou ao clube baiano como o camisa 10 e capitão da equipe. Ficou evidente, o Bahia mudou de patamar.

Cauly e Everton Ribeiro em ação no BAVI - Letícia Martins / EC Bahia

Acostumado a brigar contra o rebaixamento, o Tricolor elevou o nível do elenco e buscava sonhar com coisas maiores em 2024. Diante deste cenário, era necessário que Cauly, responsável por comandar a equipe em 2023, lidasse em dividir o protagonismo. Fora de campo, o entrosamento entre o “Quarteto Fantástico” nunca foi questionado, já que era perceptível a boa relação. Porém, dentro das quatro linhas, a realidade era outra.

De cara, uma mudança foi sentida. Como é possível observar no mapa de calor do atleta na temporada, o camisa 8 tricolor deixou de atuar pelas pontas e precisava circular menos pelo campo.  Sua função, similar a de um falso nove, era mais centralizada, onde marcava um pouco menos e era costumeiro receber a bola “de costas para o gol”. 

Dados: Sofascore

Na época, Rogério Ceni foi questionado sobre a utilização do jogador mesmo durante uma fase ruim dentro das quatro linhas. De prontidão, o treinador confirmou que continuaria insistindo no atleta, o tratando como um jogador especial.

"Ele vai continuar jogando e a gente vai tentar resgatar a melhor versão do Cauly com o passar dos jogos. Se a cada vez que ele erra vocês criticarem... Ele era o nosso grande jogador no ano passado e assim como Jean, Everton e Caio [Alexandre]. São jogadores especiais. Claro que ele tem que melhorar, e eu cobro bastante dele. É um jogador importante. Não é colocar o jogador no banco que vai fazer ele ser melhor", declarou Ceni.

Rogério Ceni e Cauly- Foto: Letícia Martins / EC Bahia

Ao longo da temporada, Cauly chegou a comentar sobre a sua mudança de função na equipe. Na visão dele, o seu desempenho não foi afetado pela chegada dos novos atletas, que também dividiam o protagonismo da equipe. Além disso, ele refletiu novamente sobre seus números estarem parecidos com 2024.

“[...] esse ano temos um grupo qualificado, com muitos jogadores com características parecidas, de dar passes decisivos. Tem vários jogadores que tomam decisões, e no ano passado as decisões passavam muito por mim. Não me prejudica, vejo como um ano positivo, cada um tem opiniões diferentes sobre eu não ter me destacado muito como no ano passado, mas em questões de números eu já falei que está bem parecido”, explicou ele

Como ele mesmo disse, em um ano considerado abaixo, o meio-campista conseguiu chegar muito perto em números de participações em gols. Desta vez, foram 9 gols e 9 assistências, em 63 jogos. Outra estatística interessante foram as 38 partidas disputadas no Brasileirão, o que apenas outros quatro jogadores de linha tinham conseguido na história dos pontos corridos pelo tricolor. O momento foi comemorado pelo Bahia.


“Cauly se tornou apenas o 5º jogador de linha a participar das 38 rodadas de uma mesma edição do Brasileirão nos últimos 10 anos. Ao longo da temporada somou o mesmo número de participações em gol que 2023: 19. Desta vez, 9 gols e 10 assistências”, escreveu o clube nas redes sociais.

Ao contrário de 2023, quando o camisa 8 foi titular em 43 das 47 partidas na temporada, Cauly passou a conviver com a reserva em 2024, ainda que em menor número. Foram 62 partidas, das quais 55 foram como titular. Os quase 20 jogos a mais, somados as quase mesmas participações em gols do ano anterior, escancarava uma temporada longe das lesões, mas evidentemente próximo de um declínio técnico.

Um ponto a ser observado foi o jogo entre Bahia x Atlético-GO, válido pela 38ª rodada do Campeonato Brasileiro. Se vencesse, o Tricolor garantiria o retorno a Libertadores após mais de 35 anos de ausência. Pela descrição, é possível perceber que este foi o jogo mais importante do clube no ano, que estava com sua força máxima. 

Em 2023, na última rodada, diante do Atlético-MG, Cauly era peça indispensável, foi o titular, marcou um dos gols e garantiu a permanência do clube. Na partida decisiva de 2024, o camisa 8 precisou amargar a reserva. Mesmo que ele tenha entrado em campo, a escolha de Rogério Ceni em colocar o meia no banco, foi um presságio do que seria em 2025. 

O último ato

Pela primeira vez desde sua chegada, Cauly precisava dar a volta por cima. Um dos pilares dos últimos anos havia perdido a sua vaga “garantida” na equipe, além do amor e paciência de certa parte da torcida, o que se mostrou como um dos principais tópicos na temporada. 2025 era o ano de provação para o camisa 8. Após 36 anos, a equipe que ele ajudou a se manter na Série A de forma impressionante dois anos antes, retornava ao mais alto palanque do futebol sul-americano. 

Para 2025, o Bahia buscava se manter consolidar no alto nível do futebol brasileiro e voltar a conquistar títulos, visto o ano em branco de 2024. Agora, com mais jogos, era necessário dividir a atenção e rodar mais o elenco, onde peças consideradas “titulares” ou “reservas” revezavam entre partidas de menos/mais expressões. Neste momento, ficou evidente a posição em que Cauly era imaginado na equipe.

Cauly após marcar no Paysandu, pela Copa do Brasil 2025 - Rafael Rodrigues / EC Bahia

Nos duelos da Libertadores, contra The Strongest e Boston River, o baiano começou os jogos no banco de reserva. Já pela final do Campeonato Baiano, diante do Vitória, ele iniciou como titular na Fonte Nova, mas foi opção no banco no jogo decisivo no Barradão. Enquanto os objetivos do Tricolor eram conquistados, a classificação para Fase de Grupos e título estadual, o desempenho pessoal de Cauly acabava ficando aquém, o que se repetiu durante boa parte do ano.

Ainda que tenha sido o jogador mais utilizado por Rogério Ceni na temporada, ao lado de Luciano Juba com 63 jogos, a minutagem do atleta era muito menor do que nos anos anteriores, em que entrou em menos partidas. Foram 63 jogos, dos quais apenas 31 foram como titular. O número de participações em gols também diminuiu drasticamente, com apenas 4 gols e 5 assistências. Sendo o último tento assinalado no dia 03 de maio, logo no início do Brasileirão. 

Similar a 2024, Cauly ainda dividia o protagonismo com outros jogadores e costumava atuar como falso 9. Pelo mapa de calor, o baiano jogava em uma faixa mais centralizada ou caía mais para o lado direito do campo. Principal característica do camisa 8, a construção do jogo pelo centro do campo quase não existiam no esquema de Rogério Ceni. 

Dados: Sofascore

Durante entrevista coletiva, após triunfo do Bahia diante do RB Bragantino, o técnico chegou a reconhecer que faltava um jogador das caraterísticas principais de Cauly no esquema montado por ele. Além disso, ele elogia o futebol apresentado pelo atleta, mas também reforçou a importância de contar com o meia.

“Se tem um jogador que eu nunca desisti, sempre tentei encontrar espaço, foi o Cauly. Ele entrou muito bem no jogo. Quando temos o tripécele sofre como oito na recomposição. Ele é melhor como dez, mas não é como a gente tem jogado. Hoje ele entrou em uma função que foi muito bem, podemos fazer isso mais vezes, oferecer mais minutos assim”, afirmou.

Talvez o momento mais tenso da passagem do camisa 8 pelo Tricolor tenha acontecido no dia 28 de agosto de 2025, na partida entre Bahia X Fluminense, em duelo válido pelo jogo de ida das quartas de final da Copa do Brasil. Em um Bahia convivendo com lesões, Cauly foi escalado como titular na partida, atuando como um ponta-esquerda, no lugar de Erick Pulga. O “Sacrifício” do atleta, inclusive, foi ressaltado por Rogério na coletiva pós-jogo.

"Hoje, Cauly colaborou em uma função que não é a dele porque Pulga só foi liberado para 30 minutos no máximo. Claro que Cauly não é o Pulga, não tem a velocidade, é de construção. Quando tenho um jogador que só pode fazer 45 minutos, mesmo que não seja obrigação do torcedor saber, tenho que usar Cauly pelo lado", detalhou.

A posição do meia em campo foi a de menos, para o que estava prestes a acontecer. Ao ser substituído, ele recebeu uma incessante vaia por parte da torcida. De prontidão e frustrado, Cauly responde a torcida, proferindo xingamentos e gestos com as mãos. O atleta não ficou sequer no banco de reservas, indo direto para o vestiário, a pedido de Rogério Ceni.

"Para deixar claro, eu que pedi para o Cauly ir para o vestiário. Quando ele vem, fica chateado, nervoso, eu disse: 'Não responda, a torcida é predominante. Eles pagaram o ingresso e têm o direito de se manifestar. Vá descansar no vestiário'", afirmou o treinador.

Ainda que, após o ocorrido, o baiano tenha conquistado a Copa do Nordeste, dando assistência e sendo o capitão no jogo decisivo, a relação entre Cauly e a pressão da torcida parecia dar pontos significativos para sua reta final no Tricolor. Como em 2024, o atleta não foi o escolhido para iniciar o jogo decisivo da 38ª rodada, dessa vez, contra o Fluminense. 

Ao todo, ele marcou 4 vezes e deu 5 assistências. Sendo o último gol no dia 03 de maio, diante do Botafogo, ou seja, quase 1 ano de jejum. Foram 2.831 minutos para alcançar o grande nível já apresentado, e não aconteceu. Apesar de ser a temporada com maior número de jogos pelo Bahia, 2025 foi o momento em que ele recebeu menos minutos.

O adeus

Após uma temporada “conturbada” e com polêmicas, parece que a passagem de Cauly pelo Esporte Clube Bahia chegou ao fim. Em meio a um interesse do São Paulo, o meia teria pedido para deixar o Tricolor baiano e não deve voltar a atuar pelo clube baiano. Na última quarta (28), no duelo diante do Corinthians, na capital paulista, o meia sequer viajou e não foi relacionado pelo treinador. Até então, o camisa 8 atuou em duas partidas, sem gols ou assistências.

Agora, o clube aguarda propostas interessantes por Cauly e não deve se opor a uma venda. Principal interessado até então, o São Paulo tentou o negócio por empréstimo, prontamente recusado pelos baianos. De contraproposta, o Bahia teria pedido R$ 60 milhões de reais, o que foi considerado alto pelos paulistas. No entanto, é provável que o meia, caso tenha sua saída confirmada, seja vendido por menos.

Cauly em campo na temporada de 2026 - Marcelo Gil / EC Bahia
 

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