A relação entre a cultura 'incel' e a alta no número de feminicídios no Brasil
Antes relegada a fóruns obscuros da internet, a cultura incel vem ganhando cada vez mais espaço no mundo real e se transformando em casos de violência contra a mulher.

Foto: Ilustrativa
Você provavelmente já ouviu falar na palavra ‘incel’, ‘redpill’ ou até ‘looksmaxxing’, muitas vezes ligados a casos de violência de homens contra mulheres. Ou sobre fóruns online onde pessoas se juntam para espalhar o ódio e mensagens violentas. Esses termos eram comumente usados exclusivamente em cantos obscuros da internet, agora se tornam parte do vocabulário de homens cada vez mais jovens e têm aparecido cada vez mais em notícias ligadas ao feminicídio e a casos de violência contra a mulher.
Neste mês, um caso ganhou notoriedade no qual uma garota de 17 anos foi vítima de um estupro coletivo ao ser convidada por um amigo da escola a ir à sua casa. Quatro homens de idades entre 18 e 19 anos e um menor de 17 anos foram presos suspeitos de cometer o crime.
Nas redes sociais o que chamou bastante atenção foram os rostos tranquilos e cabeças erguidas nas quais os suspeitos apareceram diante da justiça e do olhar público. Na camisa usada por um dos suspeitos de 19 anos, Vitor Hugo Simonin, estavam estampados os dizeres ‘regret nothing’, na tradução em português ‘não se arrependa de nada’. a frase é tida como um mantra entre grupos misóginos na internet que espalham discurso de ódio contra mulheres.
Ela ganhou significado quando foi usada por Andrew Tate, um influenciador digital que possui mais de 11 milhões de seguidores nas redes sociais e se auto intitula misógino e ‘rei da masculinidade tóxica’. Entre seus ensinamentos, ele diz que mulheres vítimas de agressão sexual também têm culpa por seus abusos e devem ser submissas aos homens. E são comumente disseminados nas plataformas digitais como forma de promover a cultura masculinista de superioridade de genêro.
Nos espaços digitais existem todo um ecossistema alimentado por figuras masculinas tidas como ‘gurus’ que pregam a cultura da figura do homem, a violência como forma de expressão, o papel da superioridade masculina diante das mulheres e a necessidade de subjulgar as figuras femininas.
Machosfera e o culto ao ódio
A ‘machosfera’ é composta por comunidades online que buscam unir subculturas onde o ódio às mulheres é parte central e comum. A cultura ‘redpill’ surge de uma distorção de um conceito apresentado no filme “Matrix”, onde o personagem principal, Neo, é apresentado com uma escolha. Onde, ao escolher a pílula azul, ele viveria num mundo ilusório, e a pílula vermelha ‘red pill’ abriria os olhos para um mundo real. A escolha da pílula vermelha é vista pelos participantes do movimento como uma forma de se desprender do que eles acreditam ser a ilusão do que o mundo real apresenta. Onde as regras da sociedade não devem ser seguidas, pois, segundo eles, são feitas somente para beneficiar as mulheres.
Uma outra comunidade da machosfera conhecida como ‘incel’, do inglês Involuntary Celibacy, ou Celibatários Involuntários, é composta indivíduos que acreditam que o celibato é a melhor alternativa para conseguir conviver em sociedade, já que eles creem que, devido a pressões externas, não conseguem se relacionar com o outro sexo. A vitimização e os discursos violentos são as características mais proeminentes deste grupo, que, apesar de ter nascido de inquietações e desprazer sobre as pressões da sociedade, se uniu de forma a espalhar o ódio e violência contra minorias.
A baixa estima de homens jovens vem causando um movimento perigoso, onde surge outro movimento alarmante chamado de ‘looksmaxxing’. Muitas vezes disfarçada de uma cultura de autoajuda, ela consiste em táticas para aumentar o seu nível de atratividade para o sexo oposto. Desde técnicas de skincare, rotinas de academia perigosas ou até a autodesfiguração. Como exemplo, no caso do influenciador americano conhecido como ‘Clavicular’, que ficou famoso nas redes sociais após usar um martelo para quebrar seu próprio maxilar, para o que, segundo ele, faria-o ficar mais atraente. Comunidades e práticas como essa se tornarão parte da experiência de jovens em redes sociais e suas oratórias de ódio a mulheres contribuem para o aumento de casos de violência no mundo real.
Números recorde de violência no Brasil
O Brasil registrou recorde no número de vítimas de feminicídio em 2025, quando 1.528 mulheres tiveram suas vidas ceifadas pelo simples fato de ser mulher. Os dados são do Ministério da Justiça e Segurança Pública e comprovam que ideologias de ódio a mulheres no espaço digital vêm contribuindo para o aumento de crimes na vida real.
Os perpetuadores de ideais ‘redpill’, ao contrário do que se espera, não fazem questão de esconder suas ideologias por trás das telas ou de perfis anônimos. A cultura misógina é compartilhada abertamente em perfis pessoais e até vira trend. A figura do incel escondido atrás das telas de computador deixou de ser exclusiva, ela agora se estende de forma mais clara no dia-a-dia, seja na violência acometida a jovem Alana Anísio Rosa, que sofreu 30 facadas por negar um pedido de namoro até a Taianara de Souza Santos, atropelada e arrastada por um ex-namorado por cerca de 1 quilometro pelas ruas de São Paulo, ou a jovem atraída por um ‘amigo’ á uma armadilha e estuprada por mais quatro homens, fica cada vez mais aparente as consequências da normalização desses ideais.
A 'trendificação' do ódio
Atualmente, viralizou a trend “POV treinando para quando ela dizer que não”, vídeos em que homens atuam como irão agir caso a mulher não consinta a algum pedido. Os vídeos imaginam um cenário onde eles ensaiam uma reação de violência e agressão caso recebam uma resposta negativa a pedidos de namoro. Diversos homens jovens participaram dessa trend onde se perpetua a ideia de que a mulher não possui o direito ou o poder de negar os desejos do sexo oposto. E, portanto, devem ser punidas por meio de agressão.
A questão da violência voltada ao sexo feminino deve ser discutida para além de investigações criminais ou medidas sociais. Ela deve ser abordada dentro do seio familiar e também no âmbito das redes sociais. A normalização e a algoritmização desse tipo de conteúdo em espaços digitais,contribuem para a facilitação do acesso de crianças e adolescentes, normalizando pensamentos ideológicos violentos e pondo em risco mulheres e adolescentes.
A proliferação da machosfera e de conteúdos redpill devem ser vista como uma ameaça a sociedade atual, por sua tentativa de normalização de discursos e ações violentas e de tentar cooptar jovens para esferas onde o ódio a si e ao outro se tornam requisitos para a socialização.
No Brasil,está em tramitação no plenário uma proposta de Lei PL nº 2630 a Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet, conhecida como PL da Fake News que busca responsabilizar e punir plataformas digitais por conteúdos como ameaça e incitação a violência, assim como a remoção de posts que violam os direitos humanos e a transparência do algoritmo em relação ao impulsionamento de posts com discursos de ódio. O projeto ainda está em tramitação no Plenário e sua aprovação será mais um passo em direção a diminuição da exposição e disseminação de discursos de ódio em ambiente digital e no mundo real.
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