Elisa Lucinda relembra episódio em que pediram para alisar seu cabelo crespo para viver médica em novela
Atriz e poetisa compartilhou relato sobre racismo estrutural nos bastidores da televisão em 2007 e destacou a evolução no debate sobre o tema
Foto: Reprodução/Redes sociais - Tv Globo
A atriz, poetisa e cantora Elisa Lucinda relembrou um marcante episódio de preconceito e racismo estrutural enfrentado nos bastidores da televisão brasileira. Em relato recente, a artista contou que, durante a preparação para a novela Páginas da Vida (exibida originalmente em 2006/2007), foi orientada pela equipe de caracterização a alisar seus cabelos crespos sob a justificativa de que a mudança seria necessária para interpretar uma médica.
Segundo a atriz, o responsável pelo visual dos personagens exigiu a alteração afirmando que o cabelo afro não condizia com o perfil da profissão.
"O visagista falou para mim: 'Olha, não pode fazer com o cabelo [crespo]... vai ter que alisar o cabelo, porque você vai fazer uma médica'", relatou Elisa.
Ao contestar a instrução, a atriz usou a própria experiência familiar para questionar o preconceito velado. "Eu falei: 'Mas por quê? A minha mãe é médica e usa o cabelo crespo. Devo avisá-la?'", ironizou a artista durante a conversa.
A resposta dada pelo profissional, segundo Elisa, escancarou o racismo recreativo e estrutural da época: "Ele me disse: 'Você não está entendendo, estou falando de assepsia'".
Ao refletir sobre a gravidade da situação, Elisa Lucinda destacou que, na época, episódios como esse costumavam passar despercebidos ou ser naturalizados no ambiente de trabalho. Hoje, no entanto, o cenário e a conscientização social são diferentes.
"Hoje daria um processo. Na época a gente não tinha essa percepção de que isso é uma luta nossa, que isso é racismo. As pessoas que estão vivendo agora acham que sempre foi assim, mas é uma conquista recente", pontuou.
O relato de Elisa reacendeu o debate nas redes sociais sobre o padrão estético imposto a atores negros na dramaturgia brasileira e a associação histórica e preconceituosa feita entre traços afros e falta de higiene ou profissionalismo.
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