Notícias
Exclusivas
Quem lucra quando a comunidade cria? O caso do Passinho do Jamal e o debate sobre apropriação cultural

Quem lucra quando a comunidade cria? O caso do Passinho do Jamal e o debate sobre apropriação cultural

Passinho viralizado nas redes sociais reacendeu o debate sobre racismo estrutural e apropriação cultural

| Autor: Cauê Verlaine

Foto: @jamal_da_capital - @olhardamedus4

Criado no bairro de Santo Amaro, no Recife, o Passinho do Jamal furou a bolha e se tornou fenômeno mundial. No caminho, porém, a dança expôs uma velha questão brasileira: quem recebe reconhecimento e quem fica invisível quando uma criação negra e periférica é transformada em tendência?

O movimento começa com os pés, acompanha o balanço do quadril e ganha identidade com os braços. Em poucos segundos, é possível reconhecer o chamado Passinho do Jamal, dança que saiu das ruas de Santo Amaro, no Recife, para conquistar redes sociais, estádios, celebridades e até apresentações ao redor de todo o mundo.

Por trás da coreografia está Romero Júnior, conhecido como Jamal da Capital, dançarino negro e criador de conteúdo pernambucano. A dança, que tem raízes nos movimentos do brega-funk, tornou-se uma das maiores tendências brasileiras de 2026.

O sucesso, entretanto, trouxe consigo uma disputa que ultrapassa a simples reprodução de uma coreografia. A discussão envolvendo Jamal e o influenciador Arthur Lima colocou no centro do debate temas como autoria, crédito, visibilidade, mercado e apropriação cultural. Antes de se tornar uma tendência mundial, o passinho fazia parte da trajetória de Jamal e de sua comunidade.

O que inicialmente poderia ser apenas mais uma dança das redes sociais ganhou proporções inesperadas. O Passinho do Jamal passou a ser reproduzido por crianças, artistas, jogadores de futebol e outros influenciadores. A coreografia também ajudou a ampliar a visibilidade do brega-funk, gênero historicamente associado às periferias pernambucanas e frequentemente alvo de preconceito.

A expansão internacional transformou o passinho em um produto cultural de enorme alcance. Mas também evidenciou uma contradição: quanto mais a criação se afastava de seu autor, maior parecia ser a necessidade de lembrar quem estava por trás dela.

A polêmica ganhou força em agosto deste ano, após Arthur Lima publicou um vídeo reagindo a pessoas de uma escola na Tailândia fazendo o Passinho do Jamal. O registro viralizou e levou a novas cobranças nas redes sociais sobre a ausência de crédito a Jamal.

Jamal questionou publicamente a situação e afirmou que marcas e influenciadores estavam utilizando a coreografia enquanto o criador original não recebia o mesmo reconhecimento. Em uma das declarações repercutidas pela imprensa, ele levantou uma questão que desloca a discussão da simples etiqueta de uma publicação para o racismo estrutural: será que o tratamento seria o mesmo se o criador fosse branco?

Arthur, por sua vez, negou ter afirmado que criou o passinho. O influenciador sustentou que seu papel foi divulgar a dança e ajudar a levá-la a públicos de outros países. Em resposta às críticas, afirmou que apenas reagiu à repercussão internacional do movimento e questionou as cobranças que recebia.

Uma pessoa pode reproduzir uma criação sem ser seu autor. Também pode contribuir para sua popularização sem deixar de reconhecer quem a criou. O problema aparece quando essas fronteiras ficam borradas. No caso do Passinho do Jamal, o próprio nome da dança funciona como uma espécie de registro público de sua origem. Reportagens sobre o fenômeno identificam Romero Júnior como seu criador e descrevem a trajetória da coreografia desde Santo Amaro até sua disseminação internacional.

O questionamento é: quem tem o direito de colher os frutos de uma criação que nasceu na periferia?

A discussão sobre apropriação cultural não se resume à cor da pele de quem reproduz uma manifestação cultural. Cultura circula, transforma-se e é compartilhada. O próprio sucesso do Passinho do Jamal demonstra isso.

O ponto central está na assimetria de poder, Jamal é um homem negro retinto, vindo de uma comunidade periférica do Recife. Arthur Lima é um influenciador branco que alcançou grande visibilidade nas redes sociais. Quando uma criação produzida por uma pessoa negra periférica se torna rentável e socialmente valorizada depois de ser reproduzida por pessoas com maior capital de visibilidade, a questão racial passa a ser impossível de ignorar.

O próprio Jamal já havia denunciado sentir que sua aparência influenciava a forma como era tratado pelo mercado. Em maio, ao comentar a falta de reconhecimento, afirmou que acreditava que receberia tratamento diferente caso tivesse pele branca.

É inegável que as redes sociais criaram uma situação inédita para artistas periféricos: suas criações podem alcançar milhões de pessoas sem depender dos antigos intermediários da indústria cultural. Porém existe um paradoxo, a mesma ferramenta que permite que um jovem da periferia crie uma tendência mundial também permite que essa criação seja copiada em segundos, muitas vezes sem contexto, crédito ou remuneração.

Reduzir o episódio a uma briga pessoal entre Jamal da Capital e Arthur Lima seria perder o aspecto mais importante da história. O caso revela uma dinâmica recorrente na cultura brasileira: manifestações criadas em territórios negros e periféricos podem ser estigmatizadas enquanto permanecem restritas às suas comunidades, mas se tornam produtos desejáveis quando chegam a outros públicos.

A questão, portanto, não é impedir que outras pessoas dancem. É fazer com que, quando o mundo inteiro dançar, todos saibam quem começou a dança.

Varela Net agora mais perto de você: receba as notícias em tempo real no seu WhatsApp clicando aqui.

Tags

Notícias Relacionadas