Quem é Anthony Fauci e por que ele voltou ao centro da polêmica sobre a Covid-19
Médico que se tornou símbolo da resposta americana à pandemia agora enfrenta novas acusações sobre a origem do coronavírus
Foto: Wikipédia
Poucos médicos ficaram tão conhecidos durante a pandemia de Covid-19 quanto Anthony Fauci. Por décadas, ele foi uma das principais autoridades de saúde dos Estados Unidos e comandou o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, o NIAID. Em 2020, passou a aparecer diariamente na televisão como uma das principais vozes do governo americano sobre o coronavírus e acabou se tornando uma figura tão admirada quanto criticada no país.
Durante a pandemia, Fauci defendeu medidas como distanciamento social, uso de máscaras e vacinação e se tornou uma espécie de contraponto científico ao então presidente Donald Trump em momentos de divergência sobre a gravidade da doença e a retomada das atividades. A exposição fez dele um dos rostos mais conhecidos da crise, mas também transformou o médico em alvo de críticas, principalmente entre setores da direita americana, que questionavam medidas adotadas durante a pandemia e a forma como algumas recomendações foram apresentadas à população.
Anos depois, a principal controvérsia envolvendo Fauci está relacionada à origem do coronavírus. Desde o início da pandemia, existe uma disputa entre a hipótese de que o vírus passou naturalmente de animais para humanos e a possibilidade de um vazamento acidental de laboratório em Wuhan, na China. A discussão ganhou força após a descoberta de que pesquisas com coronavírus de morcegos realizadas por pesquisadores ligados à EcoHealth Alliance receberam financiamento do governo americano e envolviam trabalhos no Instituto de Virologia de Wuhan.
Como diretor do NIAID, Fauci passou a ser questionado sobre o financiamento dessas pesquisas. Republicanos americanos o acusam de ter financiado estudos perigosos e, posteriormente, de ter tentado esconder informações sobre o trabalho realizado na China. Fauci nega as acusações e, em depoimento ao Congresso em 2024, afirmou que não financiou pesquisas que provocaram a pandemia nem participou de qualquer tentativa de esconder a possibilidade de um vazamento de laboratório. Uma investigação parlamentar realizada naquele ano também não encontrou evidências de que ele tivesse financiado a pesquisa que causou a pandemia ou mentido deliberadamente sobre o assunto.
A discussão ganhou novo capítulo em 2026, durante o governo Donald Trump. A diretora de Inteligência Nacional, Tulsi Gabbard, divulgou documentos que, segundo ela, indicariam que Fauci participou de discussões para minimizar a hipótese de vazamento de laboratório e teria enganado o Congresso sobre o que sabia a respeito do assunto. As acusações, porém, continuam sendo alvo de disputa e não comprovam, por si só, que o coronavírus tenha surgido em um laboratório ou que Fauci tenha sido responsável pela pandemia.
O médico voltou ao centro da política americana em julho, quando foi convocado a depor diante de um comitê do Senado. Fauci invocou mais de 100 vezes a Quinta Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que permite ao cidadão não responder perguntas quando houver risco de produzir provas contra si mesmo. A estratégia irritou os republicanos e, em 6 de agosto, o comitê votou por 8 a 7 para encaminhar ao Departamento de Justiça uma acusação de desacato ao Congresso.
O episódio também reacendeu a discussão sobre um perdão presidencial concedido a Fauci por Joe Biden pouco antes de deixar a Casa Branca, em janeiro de 2025. A medida foi preventiva e não significa que o médico tenha sido condenado ou acusado de um crime, mas passou a ser usada pelos republicanos como argumento para defender uma investigação mais profunda.
Aos 85 anos, Fauci está aposentado do governo, mas continua sendo um dos principais personagens da disputa americana sobre a pandemia. Para seus críticos, ele representa os erros e excessos cometidos durante a resposta à Covid-19. Para seus defensores, tornou-se um alvo político utilizado para concentrar em uma única pessoa decisões que envolveram a Casa Branca, órgãos de saúde, Congresso, estados e municípios.
Seis anos depois do início da pandemia, a discussão sobre Fauci mostra que algumas das principais perguntas daquele período ainda estão longe de um consenso. A origem do coronavírus continua sendo investigada, enquanto os Estados Unidos seguem divididos sobre quais foram os erros cometidos durante a crise e quem deve responder por eles. Nesse cenário, o médico que se tornou o rosto da ciência durante a pandemia voltou a ocupar o centro de uma batalha que mistura saúde, política e disputa de poder.
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