Deepfakes nas eleições: como identificar vídeos e áudios falsos de candidatos?
Com a proximidade do primeiro turno, conteúdos manipulados por inteligência artificial acendem alerta sobre a desinformação eleitoral e levantam dúvidas sobre como identificar materiais falsos
Foto: Gerada por IA
A poucos dias do primeiro turno das eleições de 2026, vídeos e áudios manipulados por inteligência artificial (IA) colocam em discussão os desafios de identificar conteúdos falsos nas redes sociais. Com ferramentas capazes de reproduzir rostos e vozes de forma realista, gravações aparentemente autênticas podem ser utilizadas para atribuir declarações falsas a candidatos e interferir no debate eleitoral.
Um levantamento da organização britânica Eko, divulgado pelo UOL em 30 de setembro, identificou pelo menos R$ 1,1 milhão em anúncios eleitorais considerados irregulares na Meta, empresa responsável pelo Facebook e Instagram. A análise examinou anúncios veiculados entre 25 de agosto e 2 de setembro e encontrou conteúdos com uso de deepfake sem a identificação obrigatória da inteligência artificial.
O termo deepfake é utilizado para definir conteúdos criados ou manipulados por inteligência artificial que reproduzem, de maneira realista, a imagem, a voz ou a manifestação de uma pessoa. A tecnologia pode ser usada, por exemplo, para criar um vídeo em que um candidato aparece dizendo algo que nunca falou ou em uma situação que nunca aconteceu.
Embora nem todo conteúdo produzido com inteligência artificial tenha finalidade enganosa, a utilização dessa tecnologia para fabricar declarações de candidatos pode dificultar a identificação de informações verdadeiras durante o período eleitoral.
TSE estabelece regras para o uso de inteligência artificial
Diante dos riscos, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabeleceu regras para o uso de inteligência artificial na propaganda eleitoral de 2026. A regulamentação exige que conteúdos sintéticos produzidos ou significativamente alterados por IA sejam identificados de maneira explícita, destacada e acessível.
O tribunal também proíbe o uso de deepfakes na propaganda eleitoral. Em setembro, a Corte definiu critérios para caracterizar esse tipo de conteúdo, considerando o grau de realismo e a alteração da imagem, da voz ou da manifestação de uma pessoa.
Uma das situações analisadas pelo TSE envolveu um vídeo exibido durante a convenção nacional do Partido Liberal (PL), em julho, que recriou a imagem e a voz do ex-presidente Jair Bolsonaro declarando apoio à candidatura de seu filho, Flávio Bolsonaro, à Presidência da República. Em setembro, a Corte rejeitou o pedido de multa por propaganda eleitoral antecipada, considerando o contexto da exibição durante a convenção partidária.
Além disso, a regulamentação eleitoral proíbe a publicação, a republicação e o impulsionamento pago de novos conteúdos sintéticos envolvendo candidatos ou pessoas públicas nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores ao encerramento da votação.
Como identificar um deepfake?
A identificação de um conteúdo manipulado nem sempre é simples. Algumas produções apresentam falhas visuais ou sonoras, mas outras conseguem reproduzir expressões e movimentos de maneira convincente.
Entre os sinais que podem levantar suspeitas estão movimentos da boca que não acompanham a fala, alterações estranhas nas expressões faciais, mudanças bruscas na entonação da voz e inconsistências na iluminação ou no cenário. Esses indícios, porém, não são suficientes para confirmar que um conteúdo é falso.
Por isso, é importante verificar a origem da publicação, procurar a gravação original e conferir se veículos de comunicação confiáveis ou agências de checagem já analisaram o material. Mesmo quando um vídeo apresenta aparência realista, isso não garante que ele seja autêntico.
Outra recomendação é evitar o compartilhamento imediato de conteúdos suspeitos. A circulação de um vídeo ou áudio sem confirmação pode ampliar o alcance de informações falsas, especialmente durante o período eleitoral.
Como denunciar conteúdos suspeitos?
Eleitores que encontrarem conteúdos que possam violar as regras eleitorais podem encaminhar denúncias ao Ministério Público Eleitoral, por meio do MPF Serviços, ou ao TSE, pelo Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral (SIADE).
Para contribuir com a apuração, é importante guardar links, capturas de tela e outras informações que ajudem a identificar a publicação. A denúncia pode levar à análise do material e, caso sejam constatadas irregularidades, à adoção de medidas pela Justiça Eleitoral.
Com a proximidade da votação, o desafio não está apenas na criação de ferramentas capazes de produzir imagens e áudios cada vez mais realistas, mas também na capacidade de verificar as informações que circulam nas redes. Em um período marcado pela disputa eleitoral, conferir a origem de um conteúdo antes de compartilhá-lo é uma forma de evitar a propagação de desinformação.
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