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A ameaça de uma intervenção americana no Brasil em meio à eleição mais tensa dos últimos anos

A ameaça de uma intervenção americana no Brasil em meio à eleição mais tensa dos últimos anos

Entre declarações de Trump, pressão de Washington, aproximação de Flávio Bolsonaro e atuação de Eduardo nos Estados Unidos, relação entre os dois países se tornou parte da disputa eleitoral brasileira

| Autor: Daniel Fischmann

Foto: Ricardo Stuckert/Official White House Photo by Molly Riley/Charles Vieira/Campanha Flávio Bolsonaro

A menos de duas semanas do primeiro turno das eleições de 2026, marcado para 4 de outubro, o Brasil atravessa uma campanha presidencial em que a política externa deixou de ser apenas um assunto de diplomatas e passou a ocupar espaço no debate eleitoral. A relação com os Estados Unidos de Donald Trump, marcada por tarifas, sanções, críticas ao governo Lula e ameaças de uma atuação mais agressiva de Washington na América Latina, se misturou à disputa entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), principal adversário do atual presidente. O resultado é um cenário em que a soberania brasileira e o risco de interferência estrangeira passaram a ser usados como temas centrais da campanha.

A discussão ganhou força depois de Trump defender, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, uma política de maior presença dos Estados Unidos no continente americano. Em discurso na terça-feira (22), o presidente americano afirmou que Washington pretende utilizar seu “poder militar incomparável” para defender os interesses considerados vitais para os Estados Unidos e apresentou o combate ao tráfico de drogas como uma das justificativas para a nova postura. Trump também citou as ações americanas na Venezuela e reforçou a ideia de uma política externa baseada em maior domínio sobre o Hemisfério Ocidental.

A fala chamou atenção no Brasil porque o governo americano já havia classificado o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. A decisão foi anunciada pelo secretário de Estado, Marco Rubio, em maio e passou a permitir que os Estados Unidos utilizassem mecanismos mais duros contra integrantes e pessoas ou empresas consideradas relacionadas às organizações. O governo Lula reagiu afirmando que a medida representava uma interferência em assuntos internos brasileiros e rejeitou a possibilidade de uma atuação militar estrangeira no combate ao crime organizado.

Foi justamente nesse ponto que a possibilidade de uma intervenção americana passou a ser discutida com mais intensidade. Em maio, ao criticar a decisão de Washington, Lula afirmou que o Brasil não aceitaria ser tratado como uma “república de bananas” e mencionou a possibilidade de intervenção associada às declarações de Rubio. Meses depois, durante seu discurso na ONU, o presidente voltou ao tema e afirmou que o país não precisava de porta-aviões americanos patrulhando suas águas, mas de cooperação internacional para combater o fluxo de armas e dinheiro que alimenta o crime.

Até o momento, porém, não há evidência pública de que os Estados Unidos estejam preparando uma invasão militar do território brasileiro. O que existe é uma combinação de medidas econômicas, pressão diplomática, sanções e uma mudança na política americana para a América Latina, acompanhada de uma retórica militar mais agressiva. A diferença é importante porque a palavra “invasão” passou a aparecer no debate político sem que isso signifique, necessariamente, a existência de um plano militar americano para ocupar o Brasil.

A preocupação do governo brasileiro, no entanto, não surgiu apenas das declarações de Trump. Um relatório reservado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), encaminhado no fim de agosto à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça, apontou risco de influência ou interferência dos Estados Unidos nas eleições de 2026. Segundo a Agência Brasil, o documento classificou a possibilidade de interferência externa como de “nível de criticidade” e apontou uma escalada da pressão americana sobre o Brasil.

A eleição também entrou diretamente nas negociações entre Brasília e Washington. Documentos revelados em setembro mostraram que, durante as negociações relacionadas ao primeiro tarifaço americano contra produtos brasileiros, representantes dos Estados Unidos apresentaram uma minuta que incluía exigências políticas. Entre elas estava a previsão de que o Brasil realizasse eleições “livres e justas” e não impedisse a participação de “dissidentes políticos”. O documento não citava Jair Bolsonaro nominalmente, mas surgiu em um contexto no qual Trump dizia considerar o processo contra o ex-presidente brasileiro uma “caça às bruxas”. Lula classificou as exigências como inaceitáveis e afirmou que o material não seria negociado pelo governo brasileiro.

É nesse ambiente que aparece Flávio Bolsonaro. Candidato à Presidência, o senador construiu uma relação direta com Donald Trump ao longo de 2026. Em maio, foi recebido pelo presidente americano no Salão Oval da Casa Branca, em uma reunião fechada à imprensa. Segundo Flávio, os dois conversaram sobre Jair Bolsonaro, combate ao crime organizado, tarifas comerciais e minerais estratégicos. No dia seguinte, o candidato também afirmou ter se reunido com o vice-presidente americano JD Vance e com o secretário de Estado Marco Rubio.

A aproximação não ficou restrita a encontros protocolares. A relação entre Flávio e Washington passou a ser observada dentro da própria disputa eleitoral brasileira, principalmente porque Trump já demonstrou apoio político ao grupo Bolsonaro e porque o candidato brasileiro apresenta uma agenda de maior aproximação com os Estados Unidos. Na prática, a eleição brasileira passou a ter uma dimensão internacional incomum, com a política americana sendo discutida dentro dos palanques nacionais.

Outro personagem central nesse processo é Eduardo Bolsonaro. O ex-deputado está nos Estados Unidos desde 2025 e transformou sua atuação no país em uma tentativa de pressionar o governo Trump contra autoridades brasileiras. Em setembro, Eduardo e o empresário Paulo Figueiredo se reuniram com integrantes do Departamento de Estado americano e defenderam novas sanções contra os ministros Alexandre de Moraes, Flávio Dino e Gilmar Mendes. A reunião ocorreu justamente em meio aos acontecimentos envolvendo o julgamento de integrantes da trama golpista no Brasil.

A atuação de Eduardo nos Estados Unidos já havia sido associada à pressão por medidas contra o Brasil. Segundo informações divulgadas pela Agência Brasil, ele comemorou publicamente sanções americanas contra autoridades brasileiras e afirmou ter atuado junto ao governo Trump para pressionar Washington. Em setembro, depois de perder o mandato parlamentar por excesso de faltas, Eduardo continuou nos Estados Unidos e passou a atuar politicamente a partir de Washington.

Marco Rubio também se tornou uma figura importante nessa relação. Como secretário de Estado, ele ocupa uma posição central na política externa do governo Trump e foi responsável por anunciar a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas. Em maio, Rubio também recebeu Flávio Bolsonaro em Washington. Meses depois, os dois governos continuavam trocando acusações sobre interferência e soberania.

A tensão chegou a um momento simbólico na própria ONU. Depois dos discursos de Trump e Lula, Rubio tentou se aproximar do presidente brasileiro quando as delegações deixavam a plenária, mas não conseguiu alcançá-lo. O episódio ocorreu enquanto os dois países atravessavam um novo período de tensão diplomática, após medidas como tarifas contra produtos brasileiros e restrições a autoridades brasileiras.

Trump, por sua vez, não citou diretamente o Brasil em seu discurso na ONU, mas apresentou uma visão mais intervencionista para o continente. O presidente americano defendeu uma política de combate aos cartéis baseada em ações militares e afirmou que os Estados Unidos não permitiriam que ameaças consideradas estratégicas ganhassem espaço no Hemisfério Ocidental. A ausência do Brasil da coalizão regional criada por Washington para combater o tráfico de drogas também é significativa. Países como Argentina, Equador, El Salvador, Colômbia e Peru participam da iniciativa, enquanto Brasil e México ficaram de fora.

Do lado brasileiro, Lula transformou a defesa da soberania em uma das principais bandeiras desta reta final da campanha. Em seu discurso na ONU, o presidente afirmou que o Brasil não permitiria que forças internas ou externas interferissem na vontade popular. Sem citar diretamente Trump ou Flávio Bolsonaro, criticou candidatos que, segundo ele, se alinham a interesses estrangeiros e afirmou que o país não é “quintal de ninguém”.

A fala também dialoga diretamente com o cenário eleitoral. Flávio Bolsonaro é hoje o principal adversário de Lula na corrida presidencial e mantém uma relação política próxima ao governo Trump. Pesquisas recentes mostram uma disputa apertada entre os dois em cenários de segundo turno, mas os levantamentos apresentam diferenças e margens de erro que impedem conclusões definitivas sobre o resultado da eleição.

O tema da influência estrangeira chegou inclusive à Justiça Eleitoral. A campanha de Lula acionou o TSE para pedir investigação sobre uma possível atuação de estruturas ligadas aos Estados Unidos em favor de Flávio Bolsonaro. A ação menciona, entre outros pontos, a atuação de Eduardo Bolsonaro e a possibilidade de financiamento ou apoio estrangeiro à campanha. As acusações ainda precisam ser analisadas pelas autoridades competentes e não significam, por si só, que tenha sido comprovada uma interferência ilegal.

Do outro lado, Flávio e seus aliados rejeitam a ideia de que sua relação com Trump represente submissão aos interesses americanos. O candidato tem defendido a aproximação com os Estados Unidos e apresentado o relacionamento com o governo Trump como parte de uma estratégia internacional para o Brasil.

É justamente nessa disputa de narrativas que a ideia de uma possível “invasão americana” ganhou força. Para o governo Lula e seus aliados, as tarifas, sanções, classificações de organizações brasileiras como terroristas, pressão sobre o processo eleitoral e a retórica militar de Trump formam um conjunto que exige atenção à soberania nacional. Para os aliados de Flávio, a relação com Washington representa uma possibilidade de aproximação estratégica e pressão internacional sobre instituições brasileiras que eles criticam.

O que está em jogo, portanto, vai além da hipótese de tanques americanos atravessando uma fronteira brasileira. A questão central é até onde Washington pretende levar sua nova política para a América Latina e qual será o impacto dessa estratégia sobre a eleição brasileira. Pela primeira vez em muito tempo, uma disputa presidencial no Brasil acontece ao mesmo tempo em que a principal potência militar do continente declara que pretende ampliar sua atuação na região.

A história ainda está em andamento. Trump promete uma política externa mais agressiva, Lula tenta transformar a soberania em uma das bandeiras de sua campanha, Flávio Bolsonaro mantém uma ponte direta com a Casa Branca e Eduardo Bolsonaro continua atuando a partir dos Estados Unidos. Enquanto isso, Marco Rubio ocupa o centro da diplomacia americana e as instituições brasileiras tentam separar pressão política, interferência eleitoral, disputa diplomática e ameaça militar.

A poucos dias da votação, a pergunta deixou de ser apenas quem governará o Brasil a partir de 2027. Também passou a ser qual será o espaço que o país aceitará que outras potências ocupem dentro de suas decisões políticas. E, principalmente, até onde a nova estratégia de Washington para o continente poderá chegar sem transformar uma disputa eleitoral brasileira em uma crise internacional de proporções ainda maiores.

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