Mensagens internas da Meta apontam falhas que afetaram campanha de Lula nas redes sociais
Conversas obtidas pela Folha de S.Paulo relatam restrições a anúncios do presidente e recomendações indevidas de perfis ligados a Flávio Bolsonaro no Instagram e no WhatsApp
Foto: Ricardo Stuckert
Mensagens internas da Meta indicam que funcionários da empresa identificaram falhas que prejudicaram a divulgação de conteúdos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e permitiram a recomendação indevida de perfis ligados ao senador Flávio Bolsonaro (PL) durante a campanha presidencial de 2026. As conversas foram obtidas e divulgadas pelo jornal Folha de S.Paulo e tratam de episódios registrados no segundo semestre eleitoral.
Um dos casos ocorreu em 9 de outubro, quando o perfil oficial de Lula ficou impossibilitado de impulsionar publicações do feed do Instagram por quase 24 horas. Segundo a reportagem, a campanha estimou que cerca de 1,3 milhão de pessoas deixaram de receber os anúncios em razão da restrição. A equipe ainda conseguia promover conteúdos por meio de publicações conhecidas como dark posts, enquanto anúncios impulsionados anteriormente continuavam ativos.
Em mensagens internas, funcionários da Meta reconheceram que a conta do presidente estava em desvantagem em relação à de Flávio Bolsonaro e alertaram para o risco de questionamentos judiciais. A empresa atribuiu o episódio a um problema técnico no gerenciador de anúncios. As conversas também registram reclamações de funcionários sobre a demora na resposta da equipe de engenharia nos Estados Unidos, apesar da urgência do caso durante a campanha eleitoral.
A reportagem também identificou problemas nos mecanismos de busca e recomendação do Instagram. No início de outubro, o perfil de Flávio aparecia entre as sugestões de busca, enquanto a conta de Lula não era exibida nem quando o nome completo do presidente era digitado. Segundo as mensagens, funcionários reconheceram que a recomendação do senador não deveria ocorrer e classificaram o episódio como uma falha. A justificativa técnica inicial para a ausência do perfil de Lula foi o tamanho do nome utilizado na busca. A empresa informou que corrigiu o problema, embora ainda houvesse diferenças nas sugestões apresentadas.
Outro episódio envolveu o WhatsApp. De acordo com a Folha, buscas pelo termo “Exército do Lula” exibiam resultados como o Canal do Lula, o Tropa do Flávio, ligado a apoiadores do senador, e o Partido dos Trabalhadores. O canal administrado pelo deputado federal André Janones havia sido alvo de uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas voltou a funcionar após novas decisões da Corte.
As regras eleitorais brasileiras restringem a recomendação algorítmica de perfis e canais de candidatos. Conforme as normas mencionadas na reportagem, esses espaços podem aparecer quando o usuário pesquisa pelo nome exato, mas não devem ser promovidos automaticamente pelos sistemas de recomendação.
Outros problemas durante a campanha
As mensagens também relatam episódios que afetaram anúncios de ambos os candidatos. Em 23 de setembro, as contas de Lula e Flávio teriam ficado temporariamente impedidas de publicar anúncios por cerca de uma hora, após um sistema apontar atividade suspeita. Já em 1º de outubro, anúncios da campanha de Flávio foram bloqueados por uma detecção de possível uso de inteligência artificial, tecnologia sujeita a restrições eleitorais naquele período. A equipe do senador contestou a identificação.
Em resposta à reportagem, a Meta negou interferência no processo eleitoral ou favorecimento de qualquer candidatura. A empresa afirmou que os episódios tiveram causas distintas, incluindo falhas técnicas globais, um erro específico corrigido e a aplicação das regras eleitorais brasileiras.
“Não damos tratamento preferencial a candidato, partido ou posição política, e nossos sistemas não são projetados ou operados para fazê-lo”, declarou a companhia, segundo a Folha de S.Paulo.
A reportagem também ressalta que as mensagens internas não apresentam uma admissão de interferência deliberada da Meta nas eleições. Os registros mostram funcionários discutindo a gravidade dos problemas técnicos, a demora para solucioná-los e as consequências das falhas durante a campanha.
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