Entenda como funciona a vacina de dose única do Butantan suspensa temporariamente pelo governo
Tecnologia de vírus vivo atenuado foi desenvolvida para induzir imunidade completa contra os quatro sorotipos da dengue

Caixa com vacinas 1, 2, 3 e 4 para dengue |Foto: Instituto Butantan/Divulgação
A recente decisão do Ministério da Saúde de paralisar temporariamente o uso da vacina Butantan-DV acendeu o debate sobre o desenvolvimento científico nacional. O imunizante, que estava em fase de implementação gradual no Sistema Único de Saúde (SUS), destaca-se no cenário internacional por ser o primeiro no mundo projetado para garantir proteção completa contra a dengue utilizando apenas uma única dose, um diferencial logístico importante para campanhas de vacinação em larga escala.
O segredo por trás do funcionamento da vacina do Instituto Butantan está na tecnologia de vírus vivo atenuado. Os cientistas modificaram geneticamente os quatro sorotipos conhecidos do vírus da dengue (DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4), enfraquecendo-os em laboratório. Dessa forma, ao ser injetada no organismo por via subcutânea, a fórmula simula uma infecção real e estimula a produção de anticorpos, mas sem capacidade de desenvolver a doença de forma agressiva em indivíduos saudáveis.
Outra característica técnica marcante do produto nacional é a sua apresentação em pó liofilizado, técnica que congela a substância e remove a água. Esse processo confere maior estabilidade térmica à vacina, facilitando o transporte e o armazenamento em locais distantes do país sem que ela perca o efeito. Nos testes clínicos de fase 3, que basearam a aprovação da Anvisa, essa composição demonstrou uma eficácia global de 74,7% para evitar casos sintomáticos na população entre 12 e 59 anos.
A suspensão temporária e preventiva ocorreu justamente porque os sistemas de vigilância monitoram a chamada "viremia", que é a presença controlada do vírus atenuado circulando no sangue para gerar imunidade. O Ministério da Saúde identificou 42 casos de reações severas pós-aplicação, incluindo duas mortes suspeitas que estão em investigação epidemiológica. A paralisação serve para determinar se essas complicações foram causadas pela replicação inadequada do vírus enfraquecido ou por fatores biológicos pré-existentes nos pacientes.
Mesmo com a pausa nas aplicações do Butantan-DV, as autoridades sanitárias reforçam que a tecnologia de vírus atenuado permanece segura e consagrada na medicina mundial. Paralelamente, o SUS continua disponibilizando normalmente o imunizante Qdenga, desenvolvido pelo laboratório japonês Takeda para a faixa etária de 10 a 14 anos, que utiliza uma engenharia genética diferente, baseada no subtipo DENV-2, e requer duas doses para completar o ciclo de proteção.
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