A dificuldade do futebol feminino no Brasil e o desrespeito à modalidade
Modalidade vive complicadas situações em um período que deveria ser mais justo e tranquilo

Foto: Iago Ferreira/Fortaleza
O futebol é o esporte mais praticado e conhecido dentro do Brasil, levando a ter um desenvolvimento astronômico com milhões de reais se movimentando entre patrocínios, contratações, salários, materiais, etc. Entretanto, mesmo sendo popularmente muito querido, existe uma grave diferença entre a modalidade praticada pelos homens e a praticada pelas mulheres, movida a diferentes fatores que afetam todo o ecossistema do futebol feminino em diversos aspectos. No início da temporada de 2025 e em seu final, tivemos o anúncio da descontinuação de dois projetos femininos: o Athletico-PR e o Fortaleza, que encerraram seus trabalhos no setor devido ao que consideram "cortes de gastos" feitos para melhorar a situação financeira dos clubes que caíram para a série B (em 2024 e 2025, respectivamente). Agora, perto da virada do ano, a jornalista da Globo, Renata Mendonça, expõe as precárias instalações do Flamengo ao time feminino, o que foi rebatido (até de forma machista) pelo presidente da instituição, BAP. Logo, com tantas polêmicas acontecendo com uma modalidade que já deveria ser estável, qual é o problema do futebol feminino no Brasil?
CASO FORTALEZA
A descontinuação do projeto feminino em ambos os times é um grande passo atrás para a consolidação da modalidade como um esporte profissional. Isso é dito principalmente por conta do motivo do fim dos times femininos de ambos os times. Antes de tudo, é importante enfatizar que, para um clube profissional participar da série A e de competições internacionais da CONMEBOL, é essencial ter uma equipe de futebol feminino totalmente do clube ou em parceria de um projeto com um time - como o Avaí Kindermann que, anos depois do início da parceria, o clube de Santa Catarina utilizou de base para fazer o Avaí Futebol Clube Feminino. Logo, o caso do Athletico-PR e Fortaleza tem a ver com "cortes de gastos" e principalmente o rebaixamento para a série B que não conta com a "obrigação" de manter uma equipe profissional feminina, servindo assim como bode expiatório de uma crise que assola os dois clubes ao serem rebaixados.
Entretanto, existe uma dúvida sobre se realmente fica inviável manter os dois times mesmo com um rebaixamento para a segunda divisão e aqui estão os valores: O Fortaleza na temporada de 2025 teve mais ou menos R$ 8 milhões de folha salarial para o seu elenco em todos os meses do ano, o que em uma conta rápida dá R$ 96 milhões por ano, pagando inclusive R$ 700 mil para Deyverson, que pouco produziu pelo clube, segundo sites especializados. Agora, segundo informações, a folha salarial das jogadoras do Fortaleza na última temporada foi somente R$ 3 milhões, o que, segundo o orçamento geral divulgado pelo clube (apontado como R$ 387 milhões), não representa nem 1% da folha. Além disso, para a nova temporada, a CBF aprovou um projeto que já garante de início R$ 720 mil para todos os clubes que disputarem a Série A1 do brasileiro da modalidade (sem contar com despesas como transporte, material e acomodação já pagas pela entidade), o que já ajudaria qualquer clube a iniciar um projeto minimamente competitivo para a liga.
É explícito que, mesmo não sendo um contratempo para nenhum time que em menos de um ano disputava Libertadores e já estava consolidado no futebol brasileiro, ainda assim a incompetência por parte do futebol masculino prejudica o trabalho de um projeto que já entregava bons resultados, como o título da Taça Maria Bonita e o acesso à Série A1, mostrando que o trabalho feminino ainda não consegue ser independente do que ocorre no resto do clube e principalmente do futebol "principal".
CASO FLAMENGO E UM TEOR MACHISTA
Agora, sobre o Flamengo, a situação é um pouco diferente. O Rubro-Negro carioca tem um time extremamente forte tanto no masculino quanto no feminino e vem empilhando taças pelas duas equipes nos últimos anos, contando até com grandes jogadoras que participaram da seleção, como a atacante Cristiane que por muitos anos foi camisa 9 da seleção canarinha, contando com participações em Copa do Mundo e Olimpíadas. A recente situação que rondou o nome da instituição se deu após uma matéria denúncia da jornalista da Globo / SPORTV Renata Mendonça, que expôs as péssimas condições da infraestrutura do CT onde o time feminino treina, no qual conta com problemas no piso, água sem ser tratada, gramado com proporções erradas, fisioterapia feita em local impróprio e falta de local para trabalhos extracampos.
Além de revelar as condições do CT CFZ, criticando a postura do considerado maior clube do Brasil, a polêmica aumentou após a resposta do presidente da instituição Luiz Eduardo "BAP", onde, além de criticar a matéria da jornalista, criticou a aparência dela, chamando-a de "nariguda da Globo". A fala imediatamente ganhou uma grande proporção, onde, além de uma resposta da Renata repudiando a atitude do presidente, contou com notas de repúdio da sua emissora, de outras colegas e uma nota de repúdio do INCT do Futebol que classificou a atitude como "potencial banalização de comportamentos discriminatórios e de gênero", enfatizando que mesmo em um ambiente hoje mais democrático, ainda existe muito machismo dentro do futebol feminino.
Entretanto, na mesma resposta feita por BAP, ele trouxe um debate muito importante. Segundo o presidente do Flamengo, Renata não deveria criticar a instituição e sim a empresa onde trabalha (e outras emissoras), que não aumentam a verba de transmissão dada aos clubes para promover e desenvolver ainda mais o futebol feminino. "Se quer ajudar, convence a emissora a investir mais dinheiro nos direitos de transmissão que ajude o futebol feminino", disse BAP.
O ponto em questão levantado pelo presidente é crucial para debatermos sobre como anda o investimento no futebol feminino. Mesmo não existindo dados oficiais ou confiáveis sobre quanto é a verba entregue pelos clubes, é possível fazer um comparativo sobre a quantidade de locais que transmitiram a última temporada. No masculino, em 2025, o futebol foi transmitido pela Rede Globo (TV aberta, SporTV e Premiere), Record TV, CazéTV e Amazon Prime Video, enquanto no futebol feminino os jogos passavam somente na SporTV, TV Brasil e RNCP (afiliadas regionais), o que demonstra claramente a quantidade de visibilidade dada para ambas modalidades, diminuindo consequentemente a quantidade de locais transmitidos com os valores dados, ao se comparar o masculino com o feminino, o que não ajuda no desenvolvimento da categoria como um esporte mais justo e igualitário.
Logo, é possível perceber que o futebol feminino, mesmo se desenvolvendo e crescendo, ainda passa por dificuldades devido àqueles que comandam a modalidade, os quais ainda não superaram o preconceito e perceberam que a força feminina e o amor pelo futebol são grandes o suficiente para se tornar especial, independente e importante dentro do esporte.
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