Por que Flávio Bolsonaro deixou o Brasil após a derrota nas eleições?
Senador seguiu para os Estados Unidos com a família após perder a disputa presidencial e descumprir prazo para entregar passaportes; investigações e receio de prisão estão entre os fatores apontados por aliados

Foto: Charles Vieira
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos nesta terça-feira (27), dois dias após ser derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais. A viagem, confirmada por veículos como CNN Brasil e Metrópoles com base em informações de pessoas próximas ao parlamentar, ocorreu após uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que proibiu o senador de deixar o país e ordenou a entrega de seus passaportes à Polícia Federal (PF).
Mas por que Flávio deixou o país justamente nesse momento? As informações divulgadas até agora apontam para uma combinação de fatores: o receio de ser preso, o avanço de investigações que envolvem o senador e a derrota eleitoral, que impediu sua chegada à Presidência da República. Aliados também afirmaram à imprensa que ele pretende solicitar asilo político ao governo de Donald Trump. Não há, porém, confirmação pública de que o pedido tenha sido formalizado ou aceito.
O que motivou a saída?
Um dos fatores apontados por pessoas próximas a Flávio é o temor de uma eventual prisão. Segundo relatos publicados pela CNN Brasil, o senador dizia a aliados que corria esse risco. A preocupação ocorre em meio a investigações que tramitam no STF e podem avançar independentemente do resultado eleitoral.
A derrota para Lula também alterou o cenário político do senador. Caso tivesse vencido, Flávio assumiria a Presidência da República em janeiro de 2027. Com o resultado das urnas, ele continuará no Senado apenas até o encerramento de seu mandato, previsto para o início de 2027, e não terá as prerrogativas associadas ao cargo de presidente eleito. A perda da disputa, no entanto, não significa que ele tenha perdido imediatamente o mandato de senador.
A decisão de deixar o país também contrasta com uma declaração feita pelo próprio parlamentar na segunda-feira (26). Após visitar o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar, Flávio afirmou em vídeo que havia sido intimado pela Polícia Federal a entregar os passaportes e que estava proibido de viajar.
Na mesma gravação, ele disse que cumpriria a determinação e que se dedicaria à organização da oposição ao governo Lula. “Nunca pensei em sair do país. Vou entregar meus passaportes e vou me defender dessa aberração”, declarou, segundo reportagem do Metrópoles publicada sobre a fala. No dia seguinte, porém, o senador não entregou os documentos no prazo determinado, e a Polícia Federal cancelou os passaportes brasileiros em seus sistemas.
A viagem foi organizada, segundo informações atribuídas a aliados pelo Metrópoles, com a participação de um grupo restrito de pessoas no Brasil e nos Estados Unidos. A previsão divulgada era de que Flávio chegasse à Flórida acompanhado da esposa e das duas filhas. Também foi noticiado que ele pretende solicitar asilo político ao governo norte-americano, mas não há confirmação de concessão desse benefício.
Quais investigações envolvem o senador?
A saída do Brasil ocorreu enquanto Flávio é investigado em procedimentos que tramitam no Supremo Tribunal Federal. Um deles apura suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas em um caso relacionado ao advogado e empresário Willer Tomaz, amigo do senador. A investigação envolve movimentações financeiras e possíveis conexões com empresas do setor de apostas. Foi no contexto desse caso que Moraes determinou a entrega dos documentos de viagem e proibiu o contato entre os dois. Flávio e Tomaz negam irregularidades.
Outra investigação apura suspeitas relacionadas ao financiamento do filme *Dark Horse*, que retrata a trajetória de Jair Bolsonaro. A Polícia Federal investiga recursos atribuídos ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e busca esclarecer o destino dos valores e possíveis irregularidades na operação. Flávio nega ter cometido ilegalidades no caso.
A existência dessas investigações não significa que o senador tenha sido condenado pelos fatos apurados. Os procedimentos ainda dependem da análise das autoridades, e as suspeitas devem ser tratadas como tais até que haja uma conclusão judicial.
A viagem pode ter consequências políticas?
A saída de Flávio também provocou questionamentos entre aliados. Antes de deixar o Brasil, o senador havia anunciado que pretendia organizar a oposição a Lula no Congresso Nacional. A ausência pode dificultar essa articulação em um momento de reorganização do grupo político após a derrota presidencial.
Outro ponto é a situação jurídica do parlamentar. A ordem de Moraes determinava que ele não deixasse o país, além de exigir a entrega dos passaportes. O possível descumprimento da decisão poderá ser analisado pelas autoridades competentes, mas as consequências jurídicas dependem das circunstâncias apuradas e das decisões da Justiça.
A comparação com Jair Bolsonaro também ganhou força. Em 30 de dezembro de 2022, dois dias antes do fim de seu mandato presidencial, o ex-presidente viajou para os Estados Unidos após perder a eleição para Lula. Posteriormente, retornou ao Brasil e acabou condenado pelo STF por tentativa de golpe de Estado, passando a cumprir prisão domiciliar. Os casos, porém, têm contextos jurídicos próprios e não devem ser tratados como equivalentes.
Até o momento, as informações disponíveis indicam que Flávio deixou o Brasil e está a caminho dos Estados Unidos. O receio de prisão e o cenário das investigações são apontados por aliados como fatores relacionados à decisão, enquanto o eventual pedido de asilo político permanece sem confirmação pública. A motivação exata do senador não foi esclarecida de forma independente.
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